“O Concurso Literário D. João II é uma actividade da responsabilidade das docentes de Língua Portuguesa do 3º ciclo, que se realiza, anualmente, há mais de uma década, visando, essencialmente, motivar os alunos para a escrita, através da partilha e do reconhecimento que a mesma propicia.
Em virtude de a nossa escola ser um estabelecimento de ensino de referência para alunos invisuais e também devido ao facto de, na semana prevista para a redacção dos textos, se comemorar o Dia Mundial do Braille (4 de Janeiro de 2011), a proposta neste ano lectivo, consistiu em solicitar a todos os alunos do 3º ciclo que, em 45 minutos, redigissem um texto narrativo, a partir de três provérbios relacionados com o tema, designadamente, para
- 7º ano – “ Em terra de cegos, quem tem um olho é rei”;
- 8º ano – “Cego é aquele que não quer ver”;
- 9º ano – “Olhos que não vêem, coração que não sente”
Terminamos com um agradecimento a todos os participantes e felicitamos os premiados. Até para o ano!”
As professoras de Língua Portuguesa do 3º Ciclo
ALUNOS DO 7º ANO - “ Em terra de cegos quem tem um olho é rei.”
1º Prémio - Ana Rita Abreu, nº 2, 7º E
Certo dia, um menino estava sentado numa rocha a olhar para o pôr-do-sol e a pensar. Ele era muito inteligente, tinha um bom rendimento escolar e era também muito calmo.
O rapaz, muitas vezes, era gozado por ser muito aplicado nos estudos e atento nas aulas e sentia-se, frequentemente, um pouco inferior em relação aos seus colegas. Chamavam-lhe vários nomes, tais como: “marrão”, “rato da biblioteca”, “nerd”… esses nomes, assim, de deitar uma pessoa um pouco abaixo.
Passou muito tempo a ser gozado sem dizer nada a ninguém, até que se cansou e contou tudo ao seu avô, uma pessoa em quem confiava bastante e a quem expunha várias questões.
Depois de contar tudo ao avô, este apenas lhe disse um provérbio para o ajudar e que era o seguinte: “ Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.” O menino ficou confuso sem saber o seu sentido ou significado.
Todas as noites tentava perceber o que tinha o provérbio que o avô lhe dissera a ver com a sua situação. E, enquanto isso, o seu problema continuava, os colegas não paravam de o chatear e ele já estava completamente fulo.
Então, pensou em arranjar algo ou até um plano para que parassem de o aborrecer. Foi nesse momento que começou a perceber o significado do tal provérbio que o avô lhe dissera. Para ele, aquilo significava que todos tinham oportunidades de mostrar o que valiam na escola, mas nem todos aproveitavam, talvez fosse o que estava a suceder com ele e com os colegas. Ele estava a aproveitar ao máximo, enquanto que os outros não , ou seja, estavam “cegos” e, como ele tirava proveito, era “rei” porque dessa forma poderia ter um bom futuro.
De modo que, no dia seguinte, nas aulas, esforçou-se ainda mais para os provocar, e, no intervalo, lá vieram os meninos para troçar dele, mas dessa vez não resultou, pois ele disse-lhes que estudava muito e iria ter um bom futuro, o que não acontecia com eles, que só brincavam, e, terminada a explicação, citou o provérbio.
Os colegas ficaram embaraçados a pensar nas palavras que ele proferira. E foi assim que deixaram de troçar dele e, ao mesmo tempo, aprenderam uma lição de vida.
2º Prémio - Margarida Paula, nº 17, 7º A
Era uma vez uma menina chamada Catarina. Ela tinha 12 anos e estava sempre a reclamar de tudo… Um dia foi passear com os pais a uma barragem lindíssima.
- Olha, filha, tão bonito que é… – disse a mãe.
- Ai mãe, que seca!! É um lago com umas montanhas. O que é que isso tem? Não tem nada de mais!! – reclamou a Catarina.
- Ó Catarina, sai lá do carro e vem cá observar isto de perto… É maravilhoso! – propôs o pai, enquanto tirava milhares de fotografias.
- Ó pai, não quero! – refilou Catarina, sentada no banco detrás do automóvel, agarrada ao telemóvel.
Os pais olharam um para o outro com cara de preocupação, mas, entretanto, continuaram a observar a lindíssima paisagem.
Uns dias depois, a Catarina continuava a reclamar por tudo e por nada. Os pais já estavam a ficar cansados das respostas tortas e do seu mau feitio.
Numa noite, a Catarina estava no quarto e ouviu os pais a falar:
- Não, Elisabete, não concordo! Acho que, se ela continua assim, tem que ser castigada… – disse o pai.
- Pois, eu também acho que ela tem que ser castigada, mas como? Tiramos-lhe o telemóvel? O computador? – perguntou a mãe, preocupada.
- Se calhar é o melhor. É que ela anda a ser injusta, ingrata connosco… Só gosta de estar com os amigos, acha que tudo o que faz connosco é uma grande seca… – respondeu o pai.
“Não me podem tirar o telemóvel e o computador, eu morro, mas estou a ser ingrata como? Não é normal querer estar com os meus amigos!?” – pensou Catarina.
- Eu vou falar com ela e depois logo se vê – disse a mãe.
- Está bem, agora vamos dormir que já está a ficar tarde – propôs o pai, desligando as luzes.
No dia seguinte, a mãe foi falar com a Catarina…
- Filha, podemos ter uma conversa? – indagou a mãe calmamente.
- O que é que foi? – questionou agressivamente.
- É que tu tens sido ingrata connosco, nós esforçamo-nos para te dar tudo de bom e tu respondes-nos muito mal. Raramente convives connosco, durante o dia, estás na escola e, à noite, a seguir ao jantar, fechas-te no quarto e estás no computador ou a mexer no telemóvel… – disse a mãe.
- Não é bem assim! – interrompeu a Catarina.
- Deixa-me acabar… Tu já viste que no fim-de-semana passado te levámos a conhecer uma barragem lindíssima e tu só querias saber do telemóvel? Já pensaste que a nossa vizinha de baixo, a Sara, não vê. Tomara ela ver aquela barragem e tu, que podes, não aproveitas – continuou Elisabete.
- Já acabou? Já podes sair? – perguntou a filha.
- Sim, já acabou… Mas eu preciso de ajuda para ir ao supermercado e tu vens comigo! – ordenou a mãe.
Quando voltaram do supermercado, cruzaram-se com a Sara e com a sua mãe no elevador.
- Olá, estás boa? – saudou a Elisabete.
- Olá, sim, está tudo bem! – disse a mãe de Sara.
- Olhe, no fim-de-semana passado, fomos a uma barragem muito bonita… Olhe aqui a foto – disse Elisabete, mostrando uma foto que tinha na mala.
- Quanto eu gostava de poder ver essa fotografia e a vida – disse a Sara.
- Pois, isso deve ser horrível, minha querida. Lamento imenso! – exclamou Elisabete.
- Então, adeus! – despediram-se.
Pouco depois de entrar em casa, Sara dirigiu-se à mãe a chorar:
- Sabes, eu estou a ser super injusta com a vida, eu, que posso ver e ter tudo o que quero, não aproveito… Ai, tenho sido tão parva!
- Pois, filha, ainda bem que te apercebeste disso sozinha – referiu a mãe, abraçando-a.
Desde esse dia, a Catarina percebeu que tinha andado a ser injusta e que tinha que aproveitar a sorte que a vida lhe dera.
3º Prémio - António Carriço, nº 2, 7º D
Há alguns anos, numa terra distante, havia uma criança cega muito alegre, mas cujos pais eram pessoas que estavam sempre com pena de ter um filho invisual e choravam muito.
Os tempos passaram e a criança cresceu, tornou-se um adolescente e não deixava de ser feliz por ser invisual, continuava alegre como sempre.
Certo dia, ouviu os pais a conversarem entre choros:
- Tenho tanta pena que o nosso filho seja cego… Gostava que ele fosse como as outras crianças, que pudesse correr, saltar, divertir-se mais e, sobretudo, conviver. Como é que vai ser o futuro dele? Quer ser arquitecto, adora, mas ele é invisual, não vai poder ser feliz – lamentou-se a mãe – Snifff, snifff.
- Havemos de arranjar uma solução – tranquilizou-a o pai.
- Mas como? Acho isso impossível! Adorava poder ajudar o nosso filho, mas não é algo que dependa de mim. Eu acho que a cegueira é um inferno… snifff, snifff – declarou a mãe.
E dito isto, o rapaz abriu a porta, agarrou-se aos seus queridos pais e disse:
- Eu não vejo a minha cegueira dessa forma, foi algo que Deus me concedeu, um dom especial, gosto de ser diferente das outras crianças. Eu não sou diferente dos outros só por causa da minha cegueira, sou diferente por ver a minha incapacidade como algo bom e não como um suplício. Creio que vocês andam sempre com cara de enterro, tristes, mas não é caso para isso; ponham mas é um sorriso nos vossos rostos e sorriam à vida para a vida vos sorrir a vocês!
A moral da história é “Em terra de cegos, quem tem um olho é rei” e, afinal de contas, “Cego é aquele que não quer ver”…
ALUNOS DO 8º ANO - “Cego é aquele que não quer ver.”
1º Prémio - Madalena Castelhano, nº 16, 8º B
Todas as noites o avô contava histórias de quando era miúdo, de quando brincava, de quando namorava, de quando gozava ou era gozado pelos outros, de quando era simplesmente o Tó, o rapaz das brincadeiras lá da terra.
Certo dia, sentámo-nos ao quente das brasas da lareira, comendo as torradas de sabor característico da avó Celeste. E do seu cadeirão, roçando as barbas brancas e ajeitando os óculos na ponta do nariz, o avô desbobinou mais uma das suas hilariantes histórias de infância.
Estava eu na escola, aliás, como em todos os outros dias e a risota da turma era geral, ninguém batia as minhas anedotas, ou os meus comentários à professora: “não digo!”, “não faço”, “não quero fazer!” e era a razão de tantas gargalhadas naquela sala de aula, saturada de barulho e confusão. Lá levei uma forte reguada e fui mandado para casa mais cedo. Pelo caminho, enquanto trauteava uma canção e pensava no castigo que a Dona Angelina, minha mãe, me ia pregar, vi sair de casa D. Eugénia, uma pobre senhora, a qual tinha ficado sem marido e com oito ricas crianças esfomeadas em casa para alimentar, um deles, o Sebastião, cego.
Entrei em casa de cabeça baixa, pousei a mochila perto da porta, e em pezinhos de lã, rezei até ao quarto para não ser visto por minha mãe. Estava quase a chegar ao meu destino, quando oiço a voz firme e serena da Dona Angelina chamar-me:
- Tó! Anda cá!
E lá começou o sermão. Perguntou-me porque tinha chegado tarde a casa, mas não pareceu que fosse disso que quisesse falar. E tinha razão, disse-
-me, com os olhos quase a saltar-lhe da cara, que a Dona Eugénia tinha estado lá em casa e que, por entre choros e desabafos, lhe tinha contado que o “Tó fez troça do Tião!” Ela conta-me que o meu filho goza-o por ser cego!”
‘Tava tramado! Agora que a minha mãe e a Dona Eugénia eram amigas iam falar e conspirar contra mim! Meti isto na cabeça e adormeci a matutar nas milhentas coisas horríveis que já tinha feito ao pobre Tião, desde gozar, até lhe meter troncos partidos no caminho para tropeçar e cair. Lembro-me também de lhe dar comida estragada a comer na escola, na semana anterior. Mas a verdade é que eram essas coisas feias que eu fazia ao pobre Tião que causavam tremenda risota na escola, era considerado o “rei” do recreio.
Na manhã seguinte, quando acordei, fui até à cozinha, ensonado e com cara de poucos amigos, sentei-me à mesa para tomar o pequeno-almoço e alguém bateu à porta. “A esta hora?!” pensei eu, mas quem seria?, quem era o safado que vinha incomodar e interromper a minha sossegada refeição que devorava alambazado. Minha mãe abriu, com voz doce e meiga, e retorquiu:
- Entra Tião, entra!
E, batendo a sua bengalinha em tudo quanto era lado, veio até a mim, sorriu e sentou-se ao meu lado. Minha mãe chamou-me ao meu quarto e anunciou, com voz imponente, que ia passar esse dia com o Tião para perceber a sorte que tinha em ser saudável.
E assim foi, passei o dia com o Tião, fomos à escola, e nesse dia percebi quão grande era a massa cinzenta do menino com quem gozava diariamente. Quando a professora, Dona Clara, lhe pediu para ler um excerto d’Os Lusíadas, ele passou os dedos delicados pela folha, grossa e com muitos pontinhos indecifráveis, e ouvi o poema ser declamado como nunca antes ouvira.
Ao voltarmos da escola, ele contou-me o que fazia todos os dias, desde ajudar a mãe até ir dar de comer às galinhas.
Nessa noite, adormeci a pensar: “Cego é aquele que não quer ver!” Olhei para uma estrela que lá espreitava do céu escuro pela minha janela e segredei–lhe baixinho: – Serei cego?! Penso que sim…
E chorei toda a noite, meninos! Nunca mais gozei com ninguém da minha turma. Já não os fazia rir a eles, mas fazia-me a mim por dentro. Era feliz ao saber a sorte que tinha por não ter as dificuldades do Tião.
Fui-me deitar a pensar nisso, o avô tinha razão, tinha sempre…
2º Prémio - Abel Martinho, n.º 1, 8º B
Um certo rapaz, que vivia perto de um lago, era muito preguiçoso. A mãe, muito atarefada, pedia-lhe ajuda:
- Ó filho, vai correr com aquele cão!
Mas ele queria entender outra frase. Então fazia-se perceber assim: -Ó filho, vai comer aquele pão! – fazendo-se de inocente, comeu o pão.
A mãe, que estava a dar de comer aos patos, quando um cão a interrompera, e, como a comida se acabara, disse ao filho:
- Ó filho, vai buscar sementes!
Ele novamente, tentando arranjar maneira de não trabalhar, fingiu ter entendido assim: – Ó filho, espero que te sentes! – Lá foi ele sentar-se no sofá.
Entretanto, a mãe com tanta barafunda sentiu-se mal e começou a tossir, e, com poucas forças, gritou:
- Ó filho, faz-te atleta, vem-me ajudar porque eu estou a tossir.
Novamente quis entender isto: – Ó filho, pega na bicicleta, vai passear e vai-te divertir.
Então lá foi ele andar de bicicleta e divertiu-se imenso, quando, de repente, pensou:
- A mãe nunca mais me chamou?!
Correu depressa para o lago e a mãe tinha desmaiado. Chamou logo uma ambulância. Felizmente, estava tudo bem com a mãe.
A mãe repreendeu-o por ele não lhe querer dar ouvidos. Afinal, tinha posto uma vida em risco, porque não queria ver que a mãe precisava de ajuda e pensou só em si próprio. A partir daí, ajudou sempre a mãe.
3º Prémio - Susana Sobreiro, nº 25, 8ºC
Era uma vez um rapaz, chamado Salvador, que, infelizmente, era cego, desde que tinha nascido, ou seja, há catorze anos que não via nada. O mundo para ele era completamente escuro e sentia-se perdido naquela escuridão que ele não queria admitir ser a sua vida. Vivia com a mãe e o irmão, de quem Salvador tinha inveja, pois ele podia correr e saltar sempre que queria porque tinha visão. O seu pai há muito tempo que tinha morrido num acidente, pois o avião em que viajava despenhara-se e todas as pessoas que nele se encontravam tiveram o mesmo fim.
Um dia, o Salvador estava sentado na sala (como sempre, pois não podia vaguear pela casa) e quis ver. Estava decidido que queria ver e poder correr como todos os seus amigos, que eram poucos. A mãe entrou na sala e viu o filho a movimentar a cabeça de um lado para o outro como se estivesse à procura de algo. E realmente ele estava à procura de algo, da visão. A mãe correu para o filho e perguntou-lhe o que ele procurava e o rapaz respondeu que estava cansado de não ver. A mãe não tinha nada para lhe dizer e, em vez de palavras saírem da sua boca, lágrimas saíram dos seus lindos olhos azuis. Como não queria que o Salvador percebesse que ela estava a chorar, sentou-se novamente no sofá e disse-lhe, antes de abandonar a sala:
- Para mim, tu vês. O teu coração é tão puro que te deixa ver para além daquilo que imaginas. Acredita na mãe, um dia tu vais perceber que não se vê só com os olhos, mas, sim, também com o coração.
O menino não prestou atenção nenhuma àquilo que a mãe lhe disse, revoltado consigo próprio.
Nessa noite, quando Salvador já se encontrava na cama a pensar, ouviu uma voz, não desconhecida, porém também não sabia identificá-la. A voz era masculina, isso sem qualquer dúvida, mas foi aí que ele não aguentou mais e gritou:
- Se eu visse, saberia quem tu és!
A mãe, sobressaltada, levantou-se da cama, a pensar que o filho estava a ter outro pesadelo, que agora eram muito frequentes, e dirigiu-se ao quarto do filho. Salvador estava a chorar e não parava de bater na cama. “Está furioso” pensou a mãe. Perguntou-lhe o que se passava e o Salvador colocou-lhe a mesma pergunta. A mãe não percebeu e afirmou:
- Estás triste e furioso porque não vês. Mas será que não ouviste nada do que eu te disse à tarde?
O menino, irritado e já sem forças, porque estava a chorar, perguntou:
- Quem está aqui no quarto? É o médico, é o psiquiatra? Pensas que estou maluco, já nem acreditas no teu próprio filho!?
A mãe, que já não sabia o que fazer, pensando que o filho estava a enlouquecer, respondeu:
- Querido não está aqui ninguém e eu não te vou levar a médico nenhum, tu és normal e não estás doente.
O filho exclamou:
-Ah, não estou doente, não tenho nenhum problema? Eu sou cego!
A mãe do Salvador saiu do quarto, mas antes retorquiu:
- Filho, dorme. Amanhã vais sentir-te melhor.
Salvador descobriu que era o único que ouvia e sentia o seu pai. E foi nesse momento que descobriu que só não via quem não queria. De uma vez por todas, a sua vida tinha cor e luz.
ALUNOS DO 9º ANO - “Olhos que não vêem, coração que não sente.”
1º Prémio - Bernardo Cruz, nº3, 9ºB
Há quem diga que a visão é um dos maiores dons que temos. Será? Sim, poder ver pode dar jeito, sem dúvida, mas neste mundo há muitas coisas para ver e muitas não são propriamente boas.
Vou contar uma história. Sobre um soldado, americano, a servir no Iraque. Uma guerra pode ser dos cenários mais aterradores que existem. Pois vou dar um nome a este soldado. Granada. Poderá haver uma história sobre este nome, mas não a vou contar. Agora não.
Granada viveu um pesadelo durante a sua vida. Porquê? Porque viu. O que ele viu, apenas algo que ele simplesmente viu mudou a sua vida para sempre.
Granada era casado e tinha dois filhos que amava acima de tudo. Quando voltou da guerra, eles lá estavam, de braços abertos, à sua espera. Mas algo estava errado, tremendamente errado. Ele. Depois do que aconteceu não voltou a pronunciar uma única palavra. Nunca mais.
Os seus dias eram passados no sofá da sala. Sentado, olhava para o vazio sem mexer um músculo.
Muitos psiquiatras visitou, muitos comprimidos tomou. Todavia nada fazia efeito. O tratamento mais absurdo impacto nenhum tinha sobre o ex- -soldado. Lá ficava ele, no sofá, a olhar para o vazio, mais quieto do que qualquer pedra.
Três meses foi o tempo que a mulher levou até o deixar. Ele nunca esquecerá as suas palavras: “Não aguento mais, meu amor. Desculpa mas vou-
-me embora. Levo os miúdos comigo.”
Beijou-o na testa e saiu. Aquele leve som da porta a bater não chegou a desaparecer da sua mente. Nunca.
Seis semanas depois, Granada mexeu-se por vontade própria, pela primeira vez em três meses.
Dirigiu-se para a janela. Abriu-a e apreciou por breves momentos a agradável sensação que o vento, ao embater na sua face, proporcionava.
Assim ficou alguns minutos. Até que, por fim, se atirou da janela do sétimo andar.
E isto tudo porquê? Bom, é a eterna pergunta. O que pode ter visto o soldado, que o deixasse naquele estado? Não posso contar, até porque eu próprio não sei. Afinal, ele não contou a ninguém…
Contei esta história como um exemplo do sofrimento que o dom da visão pode causar. Vamos fechar os olhos e pensar. Se não pudéssemos ver ao longo da nossa vida, isso não iria poupar-nos tanto sofrimento?
Claro que não vou ser hipócrita e dizer que poder ver não traz coisas boas. Mas a pergunta fica. Valerá a pena?
2º Prémio - Marta Taveira, nº19, 9º C
- Que ternura, que delícia de poema, mãe. Tens tanto jeito, lê de novo, lê, por favor! – insistiu o pequeno Jaime.
- Ó pequenino, leio as vezes que tu quiseres.
E assim foi. Dona Clara, orgulhosa do seu dom de poetisa, dava a conhecer as suas obras ao seu pequeno filho invisual. Jaime era cego desde os oito anos. Andava numa escola “especial”, como a sua irmã Marta preferia chamar-lhe. Tinha amigos “iguais” a ele, com a doença da cegueira.
A sua infância fora a mais bela, e porquê? Porque ele via o cheiro das flores de jasmim do jardim da sua avó Mafalda, via o som dos pássaros a cantar, via o carinho e a beleza com que os longos cabelos negros deslizavam pelas costas da sua mãe. Simplesmente sentia o mundo.
Aos oito anos e meio, sofreu um acidente de carro, quem guiava era seu pai, Ricardo. Este último ficou gravemente ferido, o primeiro cegou. Jaime havia sido entregue ao túnel do desespero, à fossa intocável conscientemente por mortais, Jaime perdera a visão, Jaime perdera a razão de viver.
O seu pai morreu seis meses após o acidente. Jaime não pôde ver pela última vez o seu amado pai como queria, a última vez que o vira com os seus caracóis negros e o toque masculino, mas doce, do seu rosto fora quando, agarrado ao volante, Ricardo sorria para o seu querido e inocente menino, que lia poemas da mãe.
A mãe do ternurento Jaime sofreu, sofreu e sofreu. Mas nunca deixou de escrever, pois sabia que a sua escrita era uma luzinha de felicidade ao fundo daquele túnel, para o seu filho.
Dez anos depois, tem agora dezanove anos, Jaime ama uma mulher, ele sente a doçura do seu coração, sente o seu olhar vidrado nele, sente o seu sorriso a brindá-lo todas as manhãs, sente o seu coração a bombear por ele, sente o aroma a jasmim do seu perfume, como se voltasse à sua infância e recordasse a brancura das flores do jardim da sua avó.
Sim, Jaime não vê, mas o coração não precisa de ver para sentir, talvez até sinta mais se não vir.
3º Prémio - Mariana Rebelo, nº 17, 9º A
Mais um dia em que acordei com a claridade a entrar por entre os cortinados da janela. Estava um dia bonito. Era o dia. Aliás, era a noite, era a noite em que ia jantar com ela e pedi-la em casamento. Era um dia importante e decisivo nas nossas vidas. Rapidamente chegou a hora.
Esmerei-me na escolha do restaurante, na escolha da roupa e perfumei-me com o perfume que ela me oferecera no dia do meu aniversário porque sei que as mulheres ligam imenso a essas coisas. Queria que fosse especial, queria que fosse o dia da vida dela.
Às 20:00h, como combinado, fui buscá-la a casa. Como sempre, atrasou-se, mas vinha deslumbrante. Enquanto ela fechava a porta de casa, verifiquei dentro do meu casaco se tinha trazido o anel. O anel fora caríssimo, mas era encantador.
A viagem levou a um ambiente de conversa leve e divertido, como de costume. Chegámos ao restaurante e sentámo-nos numa mesa agradavelmente decorada.
Passou o devido tempo, achei que era hora. Peguei-lhe na mão. Aquelas mãos tinham-se unido pela primeira vez há cinco anos, naquele restaurante, naquela mesa. Respirei fundo, disse-lhe o quanto a amava e que os últimos cinco anos na sua companhia tinham sido os mais felizes. Tirei a pequena caixa do bolso do casaco e fiz-lhe a pergunta da forma mais carinhosa que conhecia. Ela emocionou-se e disse que queria ficar comigo para sempre. Era o sonho de uma vida. Soltei uma gargalhada de felicidade e beijei-a.
No dia seguinte, acordei a pensar que era um sonho, sentia-me como nunca! Tinha a mulher da minha vida e tinha o emprego da minha vida, tinha sido promovido a director administrativo no mês anterior.
Passara um ano e a chama continuava acesa, estávamos bastante felizes até um dia… Até ao dia em que ela recebeu a melhor proposta de emprego de sempre. Era uma jornalista prestigiada e recebera um convite da FOX NEWS. Era o sonho dela, era irrecusável. Eu sabia disso. Ela pediu-me para ir com ela, mas ambos sabíamos que era impossível. Era aqui que tinha a minha família, a minha casa, o meu emprego, a minha mãe doente, era aqui que tinha a minha vida.
Despedimo-nos, prometendo que três anos não iam separar uma relação como a nossa.
A chama foi-se apagando… Dois anos depois só restava pavio, divorciámo-nos. “Olhos que não vêem, coração que não sente”.
Menção Honrosa - Carolina Ribeiro, nº4, 9ºB
Ontem éramos três: eu, tu e a felicidade. Hoje somos dois: eu e a saudade. Vivíamos felizes, sempre a pensar no futuro, até ao dia em que me tocaste. Não estava nada à espera que o fizesses, muito menos por aquele motivo. As minhas lágrimas escorriam como se nada fosse real. As palavras que disseste magoavam-me como se espetassem uma faca no peito.
Tu, aquela pessoa que eu adorava, que me fazia sentir bem, feliz e, acima de tudo, segura… Nada mais foi igual, a partir daí. Surgiram pessoas novas, uma das quais foi ela! Ela é que nos separou e que, depois de eu aguentar tudo o que aguentei, estragou! Disseste que nunca me irias abandonar, mas não passaram de meras palavras, sem sentido nem sentimento! Um dia dizias que gostavas de mim e noutro gostavas dela!
Sou uma fraca personagem, que se isola, que chora por ti, que luta pelo teu amor, mas que, por outro lado, te quer arrancar do pensamento. Ignoras-
-me como quem ignora um cão abandonado que passa na rua. Pisas-me como um tapete da tua casa!
Eu quero seguir em frente, mas tu não deixas, apoderaste-te de mim, não me deixas partir, pois sabes que, quando quiseres, eu estarei aqui à tua espera! Ela ficou contigo, com a pessoa que eu adorava e queria para sempre na minha vida!
Mas, agora, já cansada, desisto de lutar, não por não ter maneiras de o fazer, mas, sim, por já não ter condições para sofrer! Hoje, digo que és uma página virada na minha vida e não te vou ligar, nem mandar mensagens, porque, como se costuma de dizer: “Olhos que não vêem, coração que não sente.“ Um dia, vais abrir os olhos e vais perceber que erraste, que não sou nenhum cão para me tratares como trataste e que não se humilha ninguém como me humilhaste naquele dia! Não vou dizer “Adeus”, porque não sei se é isso que eu quero, mas vou dizer, sim,” Até já!” Qualquer dia, vais perceber que eu era única e eu vou perceber que tu eras só mais um!